segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Jornal Zero Hora 2/11/2008


Pode vir quente que eu estou fervendo

Por Márcio Pinheiro

A canção-tema de A Praça da Alegria, que falava “na mesma praça, no mesmo banco”, é um dos maiores casos de música que todo mundo reconhece, mas pouca gente sabe quem é o autor. Talvez pelo fato de o criador ter sido o produtor, diretor teatral e musical, ator, jurado, cantor, vereador e compositor Carlos Imperial (1935 – 1992), um artista tão múltiplo e com interesses tão diversificados em mais de quatro décadas de carreira. A forte participação na imprensa escrita, no teatro, no cinema e no rádio fez com que Imperial rumasse naturalmente para a televisão, tendo sido um dos pioneiros na extinta TV Tupi.

Sua primeira participação foi no Clube do Rock, em que revelou artistas como Roberto Carlos, Tim Maia e Erasmo Carlos. Seu maior êxito como compositor viria em 1964, com a canção O Bom, gravada por Eduardo Araújo. Na mesma época, já na TV Record, comandava o programa Brotos no 13. Em 1966, a composição O Carango foi gravada por Erasmo Carlos e, no ano seguinte, um novo sucesso: Vem Quente que Eu Estou Fervendo.

Com o fim do movimento da Jovem Guarda, passou a atuar no jornalismo e na produção de filmes. O reconhecimento musical fez com que fosse convidado por Chacrinha para participar do programa do Velho Guerreiro, transformando-se no odiado e polêmico jurado do programa de calouros.

Na década de 1970, passou pela TV Tupi como uma das atrações dos sábados à noite. Lá, se apresentava cercado de belas mulheres, as lebres. Com o fim da Tupi, o apresentador entrou em contato com o amigo Silvio Santos para ser contratado pelo novo canal que surgia, a TVS.

Nos anos 1980, aliou-se a Leonel Brizola e, pelo PDT, foi eleito o vereador mais votado no Rio. Sua proximidade com o Carnaval fez com que fosse chamado para trabalhar na apuração, quando se notabilizou por divulgar as notas dos jurados nas apurações dos desfiles das escolas de samba. A cada nota máxima ele exclamava em alto e bom som a frase: “Dez, nota dez!” (leia mais no texto ao lado).

Concorreu sem sucesso à prefeitura em 1985 e, até o fim da vida, em 1992, manteve-se como um artista anárquico e escrachado, fiel ao lema que usava no topo da página de sua coluna na revista Amiga: “Sem liberdade para espinafrar, nenhum elogio é válido”.
Dez! Nota dez!

O escritor Denilson Monteiro, autor da biografia de Carlos Imperial, conta como surgiu o bordão mais famoso do apresentador:

"Na Quarta-feira de Cinzas, por volta das 17h, Imperial se dirigiu ao Maracanãzinho, onde seria realizada a apuração do Carnaval de 1984. As notas seriam lidas por ele, que pontualmente às 18h deu início ao trabalho. O ginásio Gilberto Cardoso ficava bem próximo do morro da Mangueira. Por isso, os torcedores da Estação Primeira se encontravam em número muito maior do que os demais. A escola já iniciou o primeiro quesito com a nota máxima, o que fez com que Imperial optasse por improvisar uma mudança na forma como estava conduzindo a apuração. Decidido a mexer com a platéia, anunciou, com sua garganta privilegiada:

– Estação Primeira de Mangueira: dez! Nota dez!

Os mangueirenses entraram em êxtase, e Imperial repetiu a fórmula com as notas máximas das demais agremiações. Por toda a cidade o que se ouvia era um novo bordão, que se alastrava como um vírus."

2 comentários:

Agnaldo disse...

Não gostava do Carlos Imperial, por achá-lo machista. Mas confesso que estou doido para ler sua biografia. E em breve farei isso.

Anônimo disse...

Aprendi muito